segunda-feira, 25 de junho de 2012

David Brainerd


Um Arauto aos Peles-Vermelhas
“Declaro, agora, que estou morrendo, que não teria gasto minha vida de outro modo, ainda que em troca do mundo inteiro”.

Muito Breve foi a vida de David Brainerd (20/04/1718 – 05/10/1747). Foi levado à glória celestial com apenas 29 anos,quando ainda era noivo de Jerusa Edwards (filha do homem de Deus, Jônatas Edwards, autor do sermão "Pecadores nas Mãos de um Deus Irado" e que foi muito usado por Deus no reavivamento espiritual norte-americano do Século XVIII). 
Converteu-se aos 20 anos e logo consagrou-se completamente ao SENHOR. Tinha verdadeira obsessão de servir a Deus e implorava para que o Senhor Jesus Cristo usasse a sua vida completamente para a honra e glória do SENHOR.
Dedicava grande parte de seu dia à oração e freqüentemente jejuava buscando mais intensamente a presença de Deus e poder para servi-lO. Como tinha o costume de anotar os fatos e pensamentos mais importantes do dia em seu diário, muitas coisas de sua vida, orações e lutas foram conhecidas, após a sua morte, através de seu diário.  Jônatas Edwards, pai de sua noiva, foi usado por Deus para escrever sua biografia.
Depois de completar seus estudos teológicos, David Brainerd sentiu-se chamado por Deus para pregar entre os índios pele-vermelhas. Assim ele anotou em seu diário: "Preguei o sermão de despedida ontem à noite, Hoje, pela manhã, orei em quase todos os lugares por onde andei, e depois me despedi dos meus amigos e iniciei a viagem para o habitat dos índios".
David Brainerd conseguiu entrar nas aldeias dos índios e começou um grande trabalho evangelístico. Relata em seu diário: "Continuo a sentir-me angustiado. À tarde preguei ao povo, mas fiquei desanimado acerca do trabalho... receio que seja impossível alcançar estas almas. Retirei-me e derramei minha alma pedindo misericórdia, mas sem sentir alívio. Completo 25 anos de idade hoje. Dói-me a alma ao pensar que vivi tão pouco para glória de Deus..."
Certo dia Brainerd percebeu que toda a aldeia se preparava para uma festa de danças e orgias para os seus deuses. Ele, então, passou todo aquele dia e toda a noite em oração e jejum. Na manhã seguinte, cheio de convicção, confrontou os índios para que não realizassem o ritual. Os índios foram tocados por Deus e, não somente abandonaram os preparativos, como ouviram durante todo o dia a pregação do missionário. Está registrado em seu diário: "Preguei à multidão sobre Isaías 53:10, ‘Todavia, o Senhor agradou moê-lo...’
Muitos, dentre uma multidão de 3 a 4 mil, ficaram comovidos a ponto de haver grande pranto...".
Com muitas dificuldades e passando por várias provações e privações, David Brainerd pregou a dezenas de tribos americanas, apesar de seu corpo franzino e de sua pouca saúde. Perdeu-se muitas vezes nas florestas, onde passou todos os tipos de dificuldades, em pântanos, chuvas e temporais, intenso calor do verão e o terrível frio do inverno. Passou fome, dormiu ao relento e debilitou ainda mais seu corpo.
Sentiu que tinha uma decisão a fazer. Devido à sua saúde abalada e à tuberculose, David Brainerd sabia que tinha apenas mais um ou dois anos de vida. Restava-lhe casar com a noiva e aceitar um convite de uma igreja para ser pastor, ou voltar aos índios e gastar seus últimos anos como missionário. Assim confidenciou em seu diário este tempo de luta em oração: "Eis-me aqui, Senhor,envia-me a mim até os confins da terra; envia-me aos selvagens do ermo; envia-me para longe de tudo que se chama conforto da terra; envia-me mesmo para a morte, se for no teu serviço e para promover o teu reino..."
Assim Brainerd voltou aos índios, e continuou sua missão. Anos depois, retornou à casa de Jônatas Edwards, onde faleceu. Sua noiva, que tanto o amava, depois de sua morte começou a murchar como uma flor, vindo a morrer quatro meses depois. Viveu apenas 29 anos, mas seu trabalho missionário é superior ao serviço e obras das pessoas que vivem 80 anos.
Sua biografia, escrita por Jônatas Edwards, tem influenciado muitos homens de Deus em suas decisões de consagração e de vocação missionária. Não há outra vida que Deus tenha usado tanto para despertamento espiritual como a dele. O próprio Jônatas Edwards recebeu grande influência, também João Wesley, A. J. Gordon, Willian Carey (que leu sua biografia e consagrou sua vida para ir à Índia), Roberto McCheyne (lendo seu diário, dedicou sua vida para evangelizar os judeus), Henrique Martyn (que, depois de ler sua biografia, entregou-se ao Senhor para servir intensamente como missionário na Índia e na Pérsia, por um pouco mais de seis anos, morrendo com 31 anos). Vidas preciosas, como diz Hebreus 11:38, "homens dos quais o mundo não era digno"!

Jim Eliot


 "Aquele que dá o que não pode manter, para ganhar o que não pode perder, não é um tolo"

A história de Jim Elliot e seus quatro amigos é uma das histórias missionárias mais empolgantes e inspiradoras.
Jim Elliot nasceu em 8 de Outubro de 1927 na cidade de Portland, no estado americano de Oregon. Jim pertencia a uma família cristã dedicada ao Senhor; desde cedo foi instruído nos caminhos de Deus, e veio a receber a Cristo como seu salvador aos 8 anos de idade. Fred, um pastor batista, e Clara Elliot, seus pais, eram bastante cuidadosos quanto à instrução bíblica de seus filhos e exerceram forte influência na formação de suas vidas.
Jim revelou-se um jovem bastante talentoso, destacando-se em todas as atividades que se envolvia. Era líder de sua classe, e detentor de uma brilhante oratória. Elaborou um aclamado discurso de honra em homenagem ao presidente americano, Franklin D. Roosevelt, por ocasião de seu falecimento. Graduou em "desenho arquitetônico" na High School e depois se transferiu para a faculdade cristã de Illinois, a Wheaton College, onde se graduou com as mais elevadas honras.
Convicto de sua vocação e chamada, Jim prioriza seus estudos com o intuito de alcançar a melhor preparação possível para o seu ministério. Empenha-se no estudo do grego, já visando uma possível tradução do evangelho para alguma lingua nativa. Segundo o registro de seu diário, sua vida tinha sido profundamente impactada pelos testemunhos de missionários como David Brainerd e Hudson Taylor. Jim Elliot orava constantemente: "Consuma minha vida, Senhor. Eu não quero uma vida longa, mas sim cheio de Ti, Senhor Jesus. Satura-me com o óleo do teu Espírito...". Durante seus estudos conheceu Elizabeth Howard, que também tinha um chamado para missões transculturais. Apesar de seus sentimentos um pelo outro, aguardaram em oração a confirmação de Deus, e somente após a graduação eles se casaram. Jim e Elizabeth se casaram em 1953, na cidade de Quito (Equador) e em 1955, nasceu sua filha Valerie.
Jim recusou convites para pastorear em algumas igrejas nos ministérios da juventude. Para alguns líderes, Jim tinha um futuro bastante promissor no ministério pastoral nas igrejas do EUA. Por esta razão foi criticado quando insistia em sua decisão em levar o evangelho de seu Salvador aos índios na Amazônia. Jim convenceu dois de seus amigos (Ed mcCully e Peter Fleming) que trabalhavam com ele numa rádio de difusão do evangelho a participarem da escola linguística, juntamente com ele e Elisabeth. Mais tarde , os três amigos e suas esposas (Jim e Elisabeth casaram-se no Equador) partem ao Equador para trabalharem com os índios Quechua. No Equador, um piloto missionário, Nate Saint, e sua esposa juntaram-se ao grupo.
Conseguiram estabelecer uma estação da missão entre os índios Quechua. Jim e Elizabeth trabalharam na tradução do Novo Testamento para a língua dos quechuas. Nesse tempo Jim se lembrou dos índios aucas (hoje conhecidos como Huaoranis) que tinham a fama de serem muito violentos e que não possuiam nenhum contato com o mundo exterior. Com o propósito de levar o evangelho aos índios huaoranis, o grupo começou a elaborar um plano que ficou conhecido como Operação Auca.
Roger Youderian, um novo missionário, com sua esposa pediram para se juntar ao grupo. Nate Saint, conseguiu avistar alguns índios aucas sobrevoando algumas áreas que foram demarcadas no mapa da operação. A partir de então começaram sistematicamente sobrevoar as áreas dos huaoranis durante quatro meses levando presentes. Amarrado por uma corda, um balde cheio de roupas, bugicangas, cereais e fotografias dos missionários era levado pelo avião que em vôos baixos deixava cair os presentes. Os índios aucas chegaram a colocar no balde um papagaio e alguns enfeites de suas vestimentas. Diante do progresso alcançado, os cinco jovens missionários resolvem montar um acampamento às margens do rio Curray. Através de uma estação de rádio comunicavam constantemente com suas esposas que tinham ficado na base da missão.
Pouco tempo depois, um grupo de quatro índios visitaram os missionários em seu acampamento. Os missionários deram-lhes presentes e alimentos como um sinal de paz. Outros contatos foram feitos por mais algumas vezes e um daqueles índios chegou a voar com Nate Saint em seu avião, sobrevoando sua própria aldeia. Incentivados por uma visita no dia 7 de Janeiro, os missionários decidiram ir até a aldeia dos huaoranis. Acordaram cedo e louvaram ao Senhor na manhã de 8 de Janeiro. Nate e Jim sobrevoando a área da aldeia dos aucas avistaram um grupo de 20 a 30 índios se movendo em direção ao acampamento. Através do rádio comunicaram com suas esposas e decidiram ás 16:30 entrarem em contato novamente.
Ao chegarem na praia de seu acampamento, Nate e Jim avisaram aos outros que os aucas estavam vindo. Munidos de armas decidiram não utilizá-las. Pouco tempo depois chegaram os aucas e pouco esses cinco jovens puderam fazer. Foram mortos pelos aucas naquele dia de 8 de Janeiro de 1956. Angustiadas pela demora do contato de seus maridos, suas esposas solicitaram imediatamente ajuda. Helicópteros e forças do exercito equatoriano sobrevoando o rio Curray encontraram os corpos de quatro missionários (não foi encontrado o corpo de Ed McCully). Seus corpos foram encontrados brutalmente perfurados por lanças e machados. O relógio de Nate Saint foi encontrado parado em 15:12 minutos, do que se deduz a hora em que foram mortos.
As esposas desses missionários, apesar da grande dor que sofreram, decidiram continuar com a missão, e algum tempo depois foram sucedidas na evangelização dos aucas. A tribo foi evangelizada e alguns anos mais tarde, o assassino de Jim Elliot, agora convertido ao Senhor Jesus e líder da igreja na aldeia batizou a filha de Jim e Elizabeth no rio onde seu pai tinha sido morto.


A vida e o testemunho desses cinco missionários martirizados por amor ao evangelho têm inspirado até hoje centenas de jovens a dedicar suas vidas ao Senhor da seara. Jim Elliot procurou servir a Jesus com todas as suas forças e a maior parte de sua vida e de seu ministério é contado por sua esposa Elizabeth em dois livros publicados posteriormente. Sua célebre frase, encontrada em seu diário nos inspira a entregar sem reservas a nossas vidas nas mãos do Mestre: "Aquele que dá o que não pode manter, para ganhar o que não pode perder, não é um tolo".

Fuente:// httpwww.atanycost.org 




terça-feira, 12 de junho de 2012

Irmãos Morávios


Iniciou-se no século 18 em Hernhut, Alemanha, a oração continua (24 horas) pelos irmãos Moravianos, esta oração  pela reforma e avivamento da igreja durou por quase 100 anos.
Os moravianos eram muito dedicados ao Senhor, mais de 2150 membros de sua igreja foram enviados como missionários. A ação missionária utilizou pessoas simples e comuns de coveiro a lavrador, de sapateiro a oleiro e até como escravo vendido. A concepção sobre missões nunca mais foi a mesma depois dos morávios.
Certa vez foi feita a seguinte pergunta a um moraviano: “O que significa ser um moraviano?”. E ele respondeu “Ser um moraviano é promover a causa global de Cristo são a mesma coisa”.
A concepção de missões dos Morávios eram unicas, temos o exemplo da história de  dois jovens Moravianos, conta a história que esses jovens, cerca de 20 anos de idade ouviram sobre uma ilha no Leste da India onde 3000 africanos trabalhavam como escravo e cujo dono era um Britânico agricultor e ateu. Esses jovens fizeram contato com o dono da ilha e perguntaram se poderiam ir para lá como missionários, a resposta do dono foi imediata: ” Nenhum pregador e nenhum clérico chegaria a essa ilha para falar sobre essa coisa sem sentido”. Então eles voltaram a orar e fizeram uma nova proposta: “E se fossemos a sua ilha como seus escravos para sempre?”, o homem disse que aceitaria, mas não pagaria nem mesmo o tranposte deles. Então os jovens usaram o valor de sua propria venda para custiar sua viagem.
No dia da partida para ilha, as famílias estavam reunidas no porto para se despedirem dos jovens. Houve orações choros e abraços, amigos e familiares puderam dar o último adeus para seus irmãos. E algumas pessoas falaram: porque vocês estão fazendo isso? Vocês nunca mais irão ver seus familiares e amigos, e vão ser escravos para o resto de suas vidas! Mas quando o barco estava se afastando do porto os dois jovens levantaram suas mãos e declararam em voz alta: "para que o Cordeiro que foi imolado receba a recompensa por seu sacrifício através das nossas vidas".
A Igreja dos Irmãos Morávios continua ativa hoje, mas seu legado é visto também em outras denominações. John Wesley foi grandemente influenciado pelos morávios e incorporou algumas de suas preocupações ao movimento metodista. William Carey, muitas vezes considerado o pai das missões modernas, estava, na verdade, seguindo os passos dos missionários morávios. “Vejam o que os morávios fizeram”, comentou ele em determinada ocasião. “Será que não poderíamos seguir seu exemplo e, em obediência a nosso Mestre Celestial, ir ao mundo e pregar o evangelho aos incrédulos”?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

 

Josaías Jr.

Depois de algum tempo tomando coragem, resolvi iniciar a leitura da famosa obra de Martinho Lutero, Da Vontade Cativa, em seu texto integral. Nesse trabalho, o reformador alemão responde a uma defesa da doutrina do livre-arbítrio feita pelo humanista Erasmo de Roterdã. Antes de entrar especificamente no assunto, o ex-monge trata de certas objeções que o filósofo católico levanta a respeito da necessidade dos mestres da igreja tratarem esse tema tão polêmico.
Para Erasmo, discussões que envolvem tópicos como livre-arbítrio, predestinação, contingência, necessidade e outras palavras complicadas não deveriam ser públicas, e essas questões não deveriam ser ensinadas ao povo. O reformador discorda de seu oponente e oferece algumas respostas para as objeções do humanista.
O curioso é que, apesar de ter escrito há quase 500 anos, os motivos que Erasmo levanta para que doutrinas mais complicadas não sejam discutidas é o mesmo argumento que muitos evangélicos brasileiros levantam hoje. E as resposta de Lutero são mais atuais que nunca.
A proposta desse artigo é aprendermos com o reformador e nos lembrarmos de que a Reforma Protestante surgiu não como tentativa de vencer controvérsias, mas como uma busca por um ensino doutrinário sadio e como fruto da preocupação de verdadeiros pastores. Nem todo aquele que entra em discussões complicadas o faz por amor à briga. Na verdade, em minha experiência, vejo que aqueles que se omitem em discussões sérias demonstram pouco amor pela igreja. Por isso, vejo que Lutero tem muito a nos ensinar hoje.

Sobre a dúvida

Uma das características marcantes de nosso tempo é a pouca atração por afirmações absolutas. Tomar uma posição clara a respeito de um assunto, ter certeza de respostas que os outros não ousam ter é um pecado capital. Claro, há exceções. Quando se trata de sentimentos – “tenho certeza de que estou feliz assim e vocês devem em respeitar” – ou de falta de certeza – “não há verdade absoluta”. Porém, sistemas abrangentes como a cosmovisão cristã são visto com desconfiança, uma vez que tendem a “oprimir” aqueles que não os aceitam.
Assim, pastores e teólogos temem tomar publicamente (ou mesmo privativamente) uma posição além do “feijão com arroz” do cristianismo. Ou eles já são influenciados pelo espírito da época, e creem de coração nas mentiras do nosso tempo ou simplesmente não querem parecer limitadores, tacanhos e extremistas, na busca pelos perdidos pós-modernos. Da mesma forma, as ovelhas são influenciadas e se comprometem apenas com a certeza da falta de certeza.
Veja, por exemplo, uma frase do popular livro A Cabana, pronunciada pelas pessoas da Trindade: “a fé não cresce na casa da certeza” e “gosto demais da incerteza”. Ou o que diz o pastor brasileiro Ricardo Gondim: Quero manter viva dentro de mim a chama da Reforma Protestante que se opôs ao dogmatismo; reivindicarei a possibilidade da dúvida”¹. Gondim também escreveu um livro, chamado Eu Creio, mas Tenho Dúvidas, onde a necessidade da insegurança como situação normal do cristão é defendida. Jovens de sua igreja declararam em uma carta o seguinte: “Não temos medo de incertezas… Não temos medo de não saber. Temos medo das certezas que prendem Deus a um esquema”. Philip Yancey, outro escritor popular, nos diz uma frase muito repetida em púlpitos, textos e sabedoria de internet: “A dúvida sempre anda com a fé, afinal, na certeza, quem precisaria de fé?”.
Tal forma de pensar, ao contrário do que Gondim pensa, aproxima mais o pensamento evangélico de pensadores modernos que dos movimentos de Lutero, Calvino e aqueles que os seguiram.

Sobre asserções

No início de Da Vontade Cativa, Lutero luta com algo parecido. Erasmo diz que o crente não deve “deleitar-se em asserções”. O que é isso? O reformador explica: “apegar-se com constância, afirmar, confessar, defender e perseverar com firmeza”. Boa parte dos cristãos, às vezes, sem perceber, são mais afeitos a Erasmo que a Lutero. Para eles, convicção em afirmações doutrinárias nada tem a ver com o cristianismo. Já ouvi pessoas dizendo que não seguem dogmas, seguem Jesus. Tolice! “Suprimiste as asserções, e suprimiste o cristianismo”, diz o reformador.
Em seguida, alguém replicará dizendo que a vida cristã é mais que apego a declarações doutrinárias. Concordamos, mas lembramos que não é menos que isso.
A resposta do reformador deve ser abraçada por todos aqueles que compreenderam as verdades bíblicas a respeito da regeneração e da obra do Espírito Santo. Basicamente ela se firma em três proposições.
  1. O próprio Espírito Santo ordena que os cristãos façam asserções (Mt 10.32, 1 Pe 3.15) e Ele mesmo o faz.
  2. A incerteza é algo lamentável e é impossível ser cristão sem compreender e apegar-se às verdades da Escritura.
  3. O Espírito santo escreve em nossos corações assertivas “mais certas e firmes do que a própria vida e toda a experiência”.
Além disso, o reformador vai mais além e demonstra como Erasmo (e todos os que o seguem) mina o próprio pensamento ao negar aquilo que hoje conhecemos como perspicuidade da Escritura². O raciocínio do ex-monge alemão é simples. Se é impossível chegar a alguma conclusão a respeito da doutrina do livre-arbítrio (e aí você pode pensar em qualquer outra doutrina, como “quem é Deus”), como o humanista católico obteve essa informação? Isto é, dizer que não podemos chegar a qualquer conclusão a respeito da doutrina do livre-arbítrio já é, em si, certa conclusão.
Sim, existem doutrinas que são mais claras, outras que nos impedem de ter um conhecimento extensivo de todos os seus pontos e ainda aquelas que exigem maior cuidado do leitor da Bíblia. Alguns exemplos são as doutrinas da Trindade, Encarnação e as diversas posições quanto a Escatologia. Mas veja – isso é diferente de sugerir que tais assuntos não possam ser tratados, pesados e defendidos. Ou que todas as propostas sobre determinado assunto têm a mesma coerência. A doutrina da Trindade, por exemplo, é cheia de mistérios. No entanto, nem por isso os concílios do passado hesitaram em banir hereges e falsas doutrinas.
Para piorar, Erasmo usa como argumentos contrários à doutrina luterana da livre graça textos de pais da igreja e teólogos católicos. Para ele, só podemos entender tais doutrinas com o auxílio dos mestres da igreja romana. O reformador rapidamente questiona o que seu oponente quer dizer. Ele pede que Erasmo decida-se entre a obscuridade da Bíblia ou a capacidade dos mestres romanistas:
“Se crês que a opinião deles foi correta, por que não os imitas? (…) Eu não os teria honrado com meu desprezo privado da maneira como tu o fazes em teu elogio público (…) Pois é preciso que uma das duas afirmações seja falsa: ou tua afirmação de que eles foram admiráveis por seu conhecimento das Sagradas Letras, por sua vida e martírio, ou tua afirmação de que a Escritura não é clara. (…)Só resta concluir que foi por brincadeira ou por adulação que disseste que eles são extremamente peritos na Escritura.”

Evangélicos católicos

Um escritor que me ajudou a perceber mais claramente como nos distanciamos dos princípios da Reforma foi Carl Trueman, professor de teologia histórica e história eclesiástica no Westminster Theological Seminary. Seus ensaios me inspiraram a ler mais de Martinho Lutero e a perceber como muito do evangelicalismo hoje foge daquilo que é historicamente protestante. Em seu artigo Beyond the Limitations of Chick Lit³, o historiador apresenta alguns pontos em que protestantes podem aprender dos católicos. Em seguida, as maiores diferenças são apresentadas e uma delas diz respeito ao tema que estamos tratando.
A respeito da clareza da Escritura, vemos claramente que, como Erasmo, a igreja evangélica afirma agora que a presença de mestres é imprescindível para a leitura da Escritura, uma vez que o crente comum não pode entender sozinho a Palavra de Deus. Além disso, ela concorda com o filósofo católico em sua falta de certeza e no pouco interesse pelo tratamento de doutrinas difíceis.
É claro que os mestres, o estudo, as confissões de fé e os comentários bíblicos são importantes para o protestante. Mas eles não eram vistos como pilares em que toda interpretação deveria se fundamentar. Embora nem todos alcançassem conhecimento de todos os pontos doutrinários, o leitor simples era considerado apto para compreender a Palavra.
Hoje, porém, percebemos que, em muitas igrejas, as suposições de Erasmo são aquelas que dominam: Não podemos entender boa parte das doutrinas. Não podemos “encaixotar” Deus. Não podemos tomar uma posição apenas. Não é possível entender a Palavra sem fazermos uso de todas as ferramentas disponíveis no mercado, como filosofia existencialista, planejamento estratégico, psicanálise, história das religiões, os manuscritos do Mar Morto e por aí vai. Generalizando um pouco, esse é o lado mais acadêmico da igreja evangélica.
Seguindo os mesmos princípios, sem perceber, estão as igrejas pentecostais e neopentecostais em que a palavra e a interpretação do líder são supremas. Ou as revelações que ele tem moldam a cosmovisão da comunidade tanto (ou mais) que a Escritura. Aqui a certeza parece ganhar da dúvida, mas ela se baseia numa patética versão “protestante” do Magistério católico4.
Assim, perdida entre igrejas que perderam suas identidades, há ainda aquele pequeno grupo que ainda entende suas raízes e as reconhece como claras na Palavra de Deus. A igreja reformada não é perfeita, e a mera aceitação da necessidade do que Lutero chama de asserções não garante uma comunidade saudável. Ainda assim, em meio ao caos evangélico, pastores e professores protestantes devem reforçar o ensino da Palavra, como algo claro, acessível e que produz segurança na vida do crente. E esses mesmos líderes não devem temer discordâncias e perguntas honestas sobre doutrina. Como disse o historiador Johannes Schulthess, “Protestantismo é a verdade em todas as circunstâncias”.
Há algum tempo, conversei com um jovem que, com alguma oposição do “apóstolo” de sua igreja, acabara de deixar o neopentecostalismo. Ao tornar-se membro de uma igreja protestante, foi recebido com a típica e estranha hospitalidade dos seguidores da Reforma – diversos livros, sugestões de sites, convites para cursos, treinamentos, etc. Impressionado, ele me disse: “engraçado que o pessoal aqui não tem medo de passar informação, né?”. De fato, o legado da Reforma Protestante é o amor pela verdade e o desejo de transmiti-la.
Que a igreja evangélica brasileira lembre-se disso.